
Certamente o encontro entre o ministro Mauro Vieira e o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, deveria representar uma oportunidade para reposicionar o Brasil dentro da lógica pragmática do comércio global. No entanto, o governo brasileiro optou por transformar uma negociação técnica em mais um palco de demonstração ideológica, insistindo em um discurso de “soberania” que, na prática, expõe vulnerabilidades estruturais de sua própria política externa. A tentativa de enfrentar os Estados Unidos em uma mesa conduzida sob a influência de Donald Trump não é apenas imprudente — é estrategicamente desastrosa.
O Brasil chega a Washington tentando amenizar as sobretaxas impostas sobre o etanol e os minerais críticos, mas o faz de forma desorganizada e reativa. Enquanto o governo americano mantém uma posição clara, associando tarifas à proteção de sua indústria e ao reforço do Estado de Direito, o Itamaraty prefere ignorar as condições políticas que moldam a diplomacia norte-americana. Essa escolha de “ouvir primeiro para negociar depois” não representa cautela, mas indecisão.
A Folha de S.Paulo, em reportagem assinada por Julia Chaib e Ricardo Della Coletta, trata o episódio com uma serenidade que não condiz com a gravidade do momento. O artigo sugere que há espaço para avanços “em três frentes caras aos americanos”, mas não reconhece o evidente desequilíbrio de poder. Os Estados Unidos tratam as negociações como instrumentos de política nacional. O Brasil, por outro lado, tenta suavizar pressões com acenos simbólicos — cotas de etanol, promessas de investimento em minerais e grupos de trabalho para regulação de big techs. Nada disso representa uma estratégia sólida.
Donald Trump, ainda que fora do poder, continua sendo o epicentro da política externa republicana. Seus aliados — como Jamieson Greer — já deixaram claro que a tolerância com governos que interferem em empresas de tecnologia e decisões judiciais é mínima. O Brasil parece ignorar que o discurso sobre “soberania digital” soa, em Washington, como ameaça direta ao livre mercado. Quando o governo Lula sinaliza que pode revisar a regulação de big techs, o faz não por convicção econômica, mas por necessidade política.
Em mercados financeiros, previsibilidade é capital. E previsibilidade é o que falta ao governo brasileiro. Ao misturar comércio, ideologia e ressentimento histórico com os Estados Unidos, o Planalto aumenta o risco-país de forma indireta, afastando investidores que dependem de estabilidade institucional. As declarações do ministro Fernando Haddad, tentando isolar a política da economia, refletem mais esperança do que estratégia. Nenhum investidor internacional desconsidera o ambiente político ao avaliar oportunidades — especialmente quando as decisões judiciais e os marcos regulatórios estão sob contestação constante.
Enquanto o governo fala em “restabelecer relações cordiais”, o setor privado observa com crescente desconfiança. A possibilidade de o Brasil abrir seu mercado para o etanol de milho norte-americano é vista, nos bastidores, como concessão sem contrapartida clara. O impacto sobre usinas do Nordeste, menos competitivas, pode gerar distorções regionais e aumentar o custo político interno. A ideia de trocar exploração de minerais críticos por “garantias de compra” soa mais como dependência estratégica do que como parceria soberana.
No fim, o que se vê é um governo que insiste em negociar como se ainda estivéssemos em um cenário de multipolaridade ideológica. O mundo atual é pragmático. Donald Trump representa uma corrente comercial americana que não negocia com retórica, mas com poder. E poder, no contexto global, é definido por capacidade de produção, estabilidade institucional e credibilidade regulatória — três elementos que o Brasil tem fragilizado em sua atual condução política.
A diplomacia econômica exige cálculo, não bravura. Enquanto o governo insiste em “fazer gestos” para agradar, a economia real exige resultados mensuráveis. Washington não respeita governos que confundem diplomacia com discurso. Respeita apenas aqueles que entendem o jogo de interesses que move o capital global. E nesse jogo, o Brasil, mais uma vez, parece jogar sem tabuleiro.
Com informações Folha de S.Paulo


















