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Boletim Focus – Inflação recua e mercado vê espaço para corte de juros em 2026

Por Notas e Informações

O boletim Focus divulgado pelo Banco Central na segunda-feira (1) trouxe mais uma rodada de revisões para as expectativas do mercado, consolidando a percepção de que a inflação brasileira caminha em trajetória mais controlada do que se supunha meses atrás. A mediana das projeções para o IPCA de 2025 recuou pela 14ª semana consecutiva, de 4,86% para 4,85%, um movimento que, embora marginal, reforça a tendência de desaceleração das pressões inflacionárias. A apreciação do real frente ao dólar e a dinâmica mais favorável dos preços no atacado têm desempenhado papel central nesse alívio, ao lado de sinais de moderação na demanda agregada.

O quadro não se restringe a 2025. Para 2026, a expectativa caiu de 4,33% para 4,31%, acumulando sete semanas de revisões para baixo, enquanto para 2027 a projeção passou de 3,97% para 3,94%. Ainda que o consenso permaneça acima da meta oficial de 3% fixada pelo Conselho Monetário Nacional, o deslocamento das curvas projetadas sinaliza que o risco inflacionário começa a perder força e abre espaço para debates mais consistentes sobre a trajetória dos juros. Em outras palavras, o mercado financeiro começa a testar a tese de que o Banco Central poderá, em algum momento de 2026, acelerar o processo de normalização monetária sem comprometer a credibilidade de sua política.

Na outra ponta do balanço macroeconômico, a atividade vem exibindo sinais mistos. O Focus registrou leve aumento nas estimativas para o crescimento do PIB, que passou de 2,18% para 2,19% em 2025 e de 1,86% para 1,87% em 2026. O avanço, embora modesto, reflete expectativas melhores para setores ligados ao agronegócio e à indústria extrativa, que seguem impulsionados por uma safra recorde de grãos e pela expansão da produção de petróleo. Entretanto, os setores mais sensíveis ao ciclo do crédito — como comércio varejista e indústria de transformação — continuam abaixo do dinamismo observado no ano passado. Essa combinação reforça a percepção de que o crescimento atual é desigual, sustentado por segmentos mais resilientes e menos dependentes de condições financeiras domésticas.

No campo monetário, a taxa Selic permanece como principal ponto de inflexão para o mercado. O consenso segue ancorado em 15% ao final de 2025, patamar que reflete a postura cautelosa da autoridade monetária diante das incertezas externas, sobretudo a condução da política comercial dos Estados Unidos e seus efeitos sobre os fluxos globais de capitais. Ainda assim, os sinais de enfraquecimento da atividade, somados ao recuo gradual das expectativas de inflação e à apreciação do câmbio, alimentam a convicção de que o Copom poderá inaugurar um ciclo de flexibilização já em janeiro. Para 2026 e 2027, a mediana das projeções indica Selic em 12,50% e 10,50%, respectivamente, um horizonte que, se confirmado, poderia oferecer algum fôlego ao setor produtivo e às famílias endividadas.

A trajetória da taxa de câmbio é outro vetor relevante para a equação econômica. O real tem se beneficiado da perspectiva de cortes de juros pelo Federal Reserve, um movimento que reduz a atratividade do dólar e devolve competitividade a moedas emergentes. Nesse ambiente, o Focus apontou ligeira queda na cotação projetada: de R$ 5,59 para R$ 5,56 ao final de 2025, e de R$ 5,64 para R$ 5,62 em 2026, com estabilidade em R$ 5,62 também em 2027. Embora a diferença seja modesta, a sinalização sugere um alívio adicional sobre preços de importados e insumos industriais, o que pode reforçar a trajetória de desaceleração inflacionária nos próximos anos.

Em síntese, o boletim desta semana não trouxe mudanças dramáticas, mas reforçou uma narrativa de consistência. A inflação esperada recua de forma gradual, a atividade cresce de maneira heterogênea e a política monetária se aproxima de um ponto de virada. O mercado ainda enxerga desafios consideráveis, especialmente porque as projeções seguem acima das metas oficiais e porque o ambiente externo continua volátil. A guerra comercial implícita entre grandes economias, as incertezas sobre a política fiscal doméstica e os riscos geopolíticos ainda podem comprometer o equilíbrio projetado.

Entretanto, o sinal que se cristaliza é de que, depois de um período prolongado de juros elevados, o Brasil começa a preparar terreno para uma reacomodação. Se o processo for conduzido com parcimônia, poderá destravar investimentos e aliviar o peso do crédito sem comprometer o esforço de controle da inflação. A economia brasileira, marcada por ciclos de otimismo e frustração, encontra-se mais uma vez diante de uma encruzilhada. A diferença, agora, é que a desaceleração dos preços parece ocorrer em sintonia com um cenário cambial mais favorável e uma base de crescimento sustentada pelo agronegócio e pelo setor energético. Se a política monetária souber calibrar o compasso, o país poderá entrar em 2026 com perspectivas mais equilibradas, ainda que desafiadoras.

Com informações Banco Central

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