
O alerta emitido nesta quinta-feira, 16, pela Reuters, em reportagem assinada por Elizabeth Howcroft e Marc Jones, acendeu um sinal vermelho no mercado financeiro global. O órgão de supervisão de riscos do G20, o Financial Stability Board (FSB), apontou “lacunas significativas” nas tentativas dos países de regulamentar o mercado de criptoativos — um setor que, embora ainda limitado em riscos imediatos, cresce em ritmo acelerado e ameaça, no médio prazo, a estabilidade financeira global.
O FSB, criado após a crise de 2008 justamente para evitar novos colapsos sistêmicos, avaliou o avanço das recomendações feitas em 2023 sobre a necessidade de padronizar as regras de criptomoedas com as do setor financeiro tradicional. O resultado é preocupante: apesar de alguns progressos, a aplicação prática das normas segue fragmentada, inconsistente e insuficiente diante do caráter transnacional do mercado de criptoativos. Em outras palavras, cada país tenta criar suas próprias regras, mas o dinheiro digital ignora fronteiras.
O secretário-geral do FSB, John Schindler, destacou em entrevista à Reuters que o movimento das criptomoedas entre países ocorre com uma facilidade inédita, expondo vulnerabilidades de controle e fiscalização. A análise revela que, embora os riscos de estabilidade ainda sejam considerados limitados, eles aumentam rapidamente. O valor total do mercado global de criptoativos dobrou no último ano, alcançando a marca de 4 trilhões de dólares, impulsionado pela valorização do bitcoin e de outros ativos digitais.
A ascensão das criptomoedas ocorre em um contexto político peculiar, marcado pelo apoio público do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, à expansão do setor. Esse incentivo fortaleceu o apetite dos investidores e acelerou a integração entre o sistema financeiro tradicional e o mercado cripto. O problema é que a regulamentação não acompanhou o mesmo ritmo. Um dos pontos mais críticos destacados pelo FSB é a ausência de estruturas regulatórias completas para as stablecoins — moedas digitais atreladas majoritariamente ao dólar.
Embora ainda representem uma fatia menor em relação ao mercado dominado pelo bitcoin, as stablecoins cresceram cerca de 75% no último ano, atingindo quase 290 bilhões de dólares. A tendência é de expansão contínua, especialmente com a implementação das novas regras americanas para esse tipo de ativo. Ainda assim, entre as 29 jurisdições analisadas pelo FSB — incluindo Estados Unidos, União Europeia, Hong Kong e Reino Unido —, apenas uma minoria possui regulações adequadas. El Salvador, país onde se concentra a operação da maior stablecoin do mundo, a Tether, sequer participou da revisão.
Mesmo sem essa participação, Schindler afirmou que o relatório é essencial para entender o cenário atual e reforçou a necessidade de cooperação internacional. Sem alinhamento global, as medidas isoladas de cada país pouco valem, pois os ativos digitais transitam com liberdade total. “Todos podemos criar marcos regulatórios, mas se não houver colaboração e troca de informações, será um desafio enorme. Esses ativos simplesmente não respeitam fronteiras”, afirmou o secretário.
O FSB relembrou que a urgência do tema não é teórica. A derrocada da exchange FTX e o colapso das moedas TerraUSD e Luna, em 2022, já haviam exposto a fragilidade do ecossistema. Mais recentemente, uma nova grande queda no mercado cripto resultou em liquidações de quase 20 bilhões de dólares, reforçando a necessidade de ação imediata.
O relatório do FSB apresenta oito recomendações para acelerar a adoção de normas consistentes e fortalecer a cooperação entre países. A advertência é clara: mesmo mercados pequenos podem desencadear crises de grandes proporções se a regulação continuar a falhar. Como sintetiza o próprio Schindler, o risco ainda é limitado — mas cresce a cada dia, impulsionado pela negligência regulatória e pela velocidade digital de um mercado que não conhece fronteiras.
Com informações Reuters


















