
Em meio a um mercado em constante ebulição, os criptoativos voltam ao centro do debate, desta vez não pela sua volatilidade conhecida ou por casos de fraudes que rondam exchanges globais, mas por uma questão ainda mais sensível: a segurança da custódia. Em São Paulo, durante a ETF Week da B3, dois executivos de peso trouxeram um ponto que pode alterar o modo como investidores institucionais e pessoas físicas encaram a exposição a moedas digitais. A mensagem, ainda que simples, carrega impacto estratégico: fundos negociados em bolsa que replicam ativos digitais oferecem uma estrutura de proteção que nem corretoras tradicionais, tampouco a tão exaltada autocustódia, conseguem assegurar plenamente.
O argumento não surge por acaso. Henry Oyama, diretor de estratégias de investimento da Hashdex, foi direto ao relatar o grau de complexidade que envolve manter criptoativos fora do ambiente institucional. O modelo de autocustódia, alardeado por entusiastas da descentralização, exige disciplina quase militar: o investidor precisa guardar palavras-chave longas, impossíveis de serem recuperadas em caso de perda. Basta um detalhe imponderável, como um desastre natural, para que todo o patrimônio seja eliminado sem apelação. Na comparação do executivo, trata-se de algo tão arriscado quanto guardar uma barra de ouro em casa, sujeito a riscos não controláveis.
A crítica não se resume ao amadorismo de investidores menos cuidadosos. Ela mira no cerne de um dilema que há anos intriga o setor: a promessa de liberdade total com ativos digitais se choca com a realidade de que pouquíssimos indivíduos estão preparados para a responsabilidade técnica que essa liberdade demanda. Na avaliação de Oyama, não é apenas uma questão de negligência; mesmo o investidor mais disciplinado pode se ver desarmado diante de circunstâncias fora de seu alcance. E quando isso acontece, não há retorno possível.
Do outro lado do painel, Theodoro Fleury, sócio e gestor da QR Asset, reforçou a mesma linha, mas ampliou o alerta para as corretoras globais. Se a autocustódia é frágil pela natureza humana, a custódia em exchanges se mostra exposta por um fator ainda mais brutal: o cibercrime. Ele lembrou o episódio da Bybit, alvo de um ataque que drenou 1,5 bilhão de dólares no início do ano, para mostrar que nem gigantes do setor estão imunes a vulnerabilidades tecnológicas. Em sua visão, delegar a custódia a gestores de ETFs é a única forma de reduzir drasticamente esses riscos. O investidor não precisa vigiar chaves ou se preocupar com invasões, porque a infraestrutura já foi desenhada para lidar com essas ameaças.
A discussão ganha relevo ao considerar o avanço das soluções institucionais de custódia. Oyama destacou que o setor deixou de ser incipiente e passou a contar com estruturas robustas, que incluem segregação geográfica de chaves e dispositivos. O que antes parecia um improviso de startups visionárias hoje já se tornou um serviço profissionalizado, com players globais competindo para oferecer níveis cada vez mais sofisticados de proteção. Em outras palavras, a custódia de criptoativos saiu do campo experimental e se transformou em um braço da indústria financeira de alta relevância.
Mas a questão central vai além da proteção de ativos. Tanto Oyama quanto Fleury defenderam que as criptomoedas devem ser vistas sob uma ótica estratégica de diversificação. Em um cenário em que ativos tradicionais sofrem pressões cada vez mais interligadas, ter instrumentos descorrelacionados pode representar um colchão contra volatilidades externas. O executivo da Hashdex lembrou que até mesmo as ações de gigantes de tecnologia — as chamadas “sete magníficas” — oscilam de maneira comparável à das criptomoedas. Para ele, volatilidade deixou de ser exceção e se tornou a regra em setores de inovação, o que exige que investidores repensem suas carteiras com maior abertura a essa classe de ativos.
O paralelo com o setor tecnológico não é trivial. Se no passado os riscos associados a criptoativos afastavam o investidor tradicional, hoje é o próprio mercado de tecnologia listado em bolsas que se mostra tão volátil quanto os tokens digitais. A diferença está no discurso. Enquanto ações de empresas bilionárias são toleradas apesar de seus altos e baixos, moedas digitais ainda sofrem resistência. Os gestores argumentam que essa visão precisa ser atualizada: não se trata de escolher entre estabilidade e risco, mas de entender que ambos caminham juntos em qualquer mercado que aposte no futuro.
A contundência das declarações ecoa em um momento de amadurecimento. O mercado de ETFs de criptoativos deixou de ser apenas uma proposta para entusiastas e passou a disputar espaço em alocações institucionais sérias. Se, por um lado, a narrativa de descentralização radical permanece viva em comunidades digitais, por outro, a lógica da gestão profissionalizada começa a se impor diante da necessidade de proteger patrimônio em larga escala. A fala dos executivos mostra que a discussão não gira mais em torno de “se” os criptoativos merecem espaço em carteiras, mas “como” esse espaço deve ser conquistado com o mínimo de vulnerabilidade.
Para investidores que buscam consistência, a mensagem transmitida no evento em São Paulo parece clara. O dilema entre liberdade absoluta e segurança controlada pesa mais do lado da proteção. Com os avanços em custódia institucional e o fortalecimento dos ETFs, a exposição a esse mercado ganha contornos de maturidade que dificilmente poderiam ser alcançados por indivíduos isolados ou corretoras sujeitas a ataques cibernéticos. O futuro das criptomoedas, ao que tudo indica, será cada vez menos sobre carteiras pessoais escondidas em cofres e cada vez mais sobre fundos robustos negociados em bolsa, sob a supervisão de profissionais treinados.
O que está em jogo não é apenas a adoção ou rejeição das criptomoedas. É a forma como investidores se relacionam com o risco em uma era de transformações profundas nos mercados. No fim, a escolha entre segurar sozinho as chaves de acesso ou confiar em estruturas especializadas pode ser a linha que separa a promessa de riqueza digital da ruína irreversível.
Com informações Reuters


















